domingueira...
E quem foi que disse que se vim ao mundo devo servir de algo, fazer algo bem feito, que me realize, preencha, invente? Quem quer que o tenha dito só o fez pra me enlouquecer. Deve ser mesmo apenas essa maldição sem fim, sem encontro. Essa neura que nos persegue de domingo à noite e que me faz ver que sou tão apenas essa vírgula estéril de mundo; esse pedaço de pausa no turbilhão; essa parte do longo romance que não é ação, nem descrição, nem personagem. Porque mesmo se eu tivesse janela pra abrir, paisagem pra apreciar; mesmo se eu tivesse todo o tempo do mundo pra apontar meus lápis e pensar em ser eu, em ser, em a cada monótona hora do dia, todinha e desnecessariamente autêntica....achar não é a resposta. Achar é esse maldito desencontro domingueiro, em que você entende o quão estupidamente desnecessária está sua vida e o quão estupidamente infeliz ela te faz. Um desencontro comigo, com o ontem e com o amanhã que terminou e tem que continuar sem me dizer nada de novo. Sem me dizer sim nem não, nessa apatia e nesse silêncio enlouquecedor de um professor querendo que você descubra as respostas sozinho. Sem mais nem menos. Mais um amanhã vai começar sem o gosto da novidade, sem o gosto da certeza nem da dúvida, sem gosto, só isso. E depois quando acordo na segunda com a leve ressaca mal curada das respostas que insisti em procurar, fecho os olhos, chego ao trabalho em ponto, continuo a vida do ponto errado em que tinha parado na sexta anterior, sem mais nem porquês, e ponto.
Escrito por Flávia Donadelli às 01h38
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