E quando voltei senti apenas a brisa de seu perfume no ar de minha sala. Um perfume de quem acaba de sair...empolgadíssimo com as possibilidades de uma viagem excitante.
Um perfume passado para tudo outro que não eu.
O perfume que se o mundo real me permitisse prenderia com grilhões de vidro, aprisionaria numa redoma estreita, paradisíaca e absolutamente, infinitamente, estupidamente minha.
Não sei se tenho que me contentar com as imperfeições desses ódios que me surgem...dessa loucura que me atasana, dessa fraqueza que me maltrata. Não sei se me contento em não demonstrar o ódio, pois não senti-lo acho que já não sou eu. Não sei se sou normal, ou se a normalidade que se foda e sou mesmo uma louca possessiva.
Não me interessa para onde as estripulias de seus acordes os levem. Não me interessa o maldito show, do maldito evento, da maldita coisa que já tinham me avisado com antecedência mas que não posso ir. Só me interessa não querer saber, não querer pensar. Aumentem a música, joguem sal nos meus olhos, me rodem, até eu cair sem sentidos, dormindo até amanhã.
Me dopem, me escondam, me enganem. Mas não me façam sentir o perfume de uma felicidade que não posso tocar, nem ver, nem imaginar, nem participar. Não me façam nem mesmo pensar nessa felicidade que me corrói as tripas. Mais uma vez. Não me deixem só com ensaios de um espetáculo inexistente, inexistente para mim. Me tirem da mesa das crianças.
Nos cantos escuros da minha redoma perfumada proibiria tudo isso. Proibiria esses adeuses malditos. Essas viagens que me deixam loucamente possessiva, solitária, paranóica.
Seus shows seriam meus, só meus, tão meus. Todos para mim.
Escrito por Flávia Donadelli às 22h44
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