Há algumas sextas-feiras fui a um bordel buscar inspiração para os meus escritos, algo que me fizesse sentir ou pensar. Estou trabalhando em algo mais elaborado, mas vou lhes mostrar, meus raríssimos leitores, o que consegui fazer até agora.
HISTÓRIAS DE UM BORDEL
Marja* era Julia* e Julia era Marja.
Eu? Eu era um ente estranho que não era homem nem puta.
Marja tinha sido presa, tinha apanhado filho e apanhado do marido de quem apanhou filho pra perder o rebento. Marja era drama; todo aquele drama daquelas roupas mal ajustadas que não foram feitas para ela e nem usadas por ela na noite anterior.
Tinha outras, diferentes de Marja. As espertas. Pegavam bebidas na conta dos homens menos espertos e iam embora.
Marja me explicou que a comissão era só delas e às vezes a bebida também. Mesmo assim permaneceu ao meu lado sem que eu lhe pagasse ou me pagasse uma única gota. A princípio não entendi, apenas apreciei a consideração.
Aquelas coxas finas transbordavam carência, a mesma carência daquele olhar assustado de quando lhe disse que o que eu queria mesmo era conversar e que, portanto, não seria um bom negócio para ela.
Marja levantou-se para dançar algumas vezes e decepcionada com a minha total imobilidade decidiu permanecer sentada. O que a prendia a mim naquele ambiente que era todo seu? Conversou comigo a noite toda. Me contou de seus homens, lhe contei dos meus. Falamos de homens, sonhos, decepções e sentimentos, como velhas amigas.
Apontou-me sua cunhada. Sim, a irmã de seu homem (aquele que não desconfiava nem de longe de seu real ganha-pão).
- E por que trouxe sua cunhada pra essa vida?
- Era aniversário dela, queríamos beber, a Augusta é o único lugar em que mulher bebe de graça. Além disso estamos muito melhor do que com o tráfico, isso aqui não dá cadeia.
Tive que concordar. Meu amigo se engraçando com a cunhada de Marja e eu a observar o movimento daquele lugar até então oculto na ignorância de meu próprio pudor.
Estava ali por algo muito maior que inspiração. Estava ali para buscar respostas à inveja que sentia delas.
Sentia inveja de mulheres fortes a ponto de comercializarem seu corpo, centradas a ponto de não envolverem sentimentos e ambiciosas a ponto de não se importarem com as conseqüências morais de seu ganha-pão.
Mas a real fonte de minha inveja estava no poder que aquelas mulheres têm. Um poder cruel, um poder sobre a fragilidade, sobre a estúpida fragilidade sexual masculina; fragilidade da qual as boas moças são vítimas, e as más moças são cúmplices. Cumplicidade que não há casal que não busque, cumplicidade que a puta ganha e que a esposa perde no momento da traição.
Perguntei-lhe, então, se haveriam, no mundo, homens fiéis. A resposta veio segura e precisa "De jeito nenhum!". Vieram, então, algumas histórias cabulosas de traições de seus clientes, traições com requinte de perversidade: Um dia após a lua de mel, um dia após desvirginar a namorada....só faltou ser um dia após a morte da mãe...mas aí já seria demais.
- Então seu namorado também te trai?
- Não! meu namorado é fiel...
Comentários a parte, achei fantástica a confiança que Marja tinha em seu homem. Foi uma das coisas mais puras que já pude presenciar. Uma prostituta, imersa nas barbaridades da natureza humana, confiando, contra suas próprias crenças e experiências, na fieldade de seu namorado.
O que mais há pra ser dito? Nesse momento comecei a observar a comanda que me deram, em forma de coração; comecei a observar aqueles homens, alguns envelhecidos e solitários, alguns em bandos; comecei a observar aquelas roupas curtas e olhares carentes ocultos em crostas de maquiagem. Minha inveja passou.
A busca, ali, era amor. Nada mais, nada menos que a busca da totalidade dos cidadãos e apátridas da terra. Talvez em uma visão romântica, talvez... Mas o sexo, as luzes vermelhas e as saias curtas não me pareciam mais do que tolas extravagâncias tentando ocultar barrigas vazias de amor, de todos os tipos de amor.
Marja era como eu. Tinha a exata confiança que eu tinha nas crenças que lhe faziam bem. Tinha as exatas frustrações que eu tinha com a rotina de trabalho. Tinha os exatos sentimentos que eu tinha quando um homem lhe tratava mal...
Naquele dia Marja não trabalhou.
*Os nomes foram alterados para preservar a identidade da personagem.
**Baseado em fatos reais.
Escrito por Flávia Donadelli às 00h30
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