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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 20 a 25 anos


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Minha saúde mental depende disso.


E o que são esses idiotas que usam óculos e acham que são cultos?

A favela se diverte muito mais.

"Eu só bato cabeça pra vovó!! Eu só bato cabeça pra vovó!! Sossego vc não tem, e também não é feliz, o medo de ficar pobre não deixa vc dormir! Se prevalece da riqueza e faz o pobre sofrer! Sou pobre mas sou teimoso, eu não bato cabeça pra vc" "Olha aí é com vovó, eu só bato cabeça pra vóvó!" Bezerra da Silva



Escrito por Flávia Donadelli às 22h09
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Há algumas sextas-feiras fui a um bordel buscar inspiração para os meus escritos, algo que me fizesse sentir ou pensar. Estou trabalhando em algo mais elaborado, mas vou lhes mostrar, meus raríssimos leitores, o que consegui fazer até agora.

HISTÓRIAS DE UM BORDEL

Marja* era Julia* e Julia era Marja.

Eu? Eu era um ente estranho que não era homem nem puta.

Marja tinha sido presa, tinha apanhado filho e apanhado do marido de quem apanhou filho pra perder o rebento. Marja era drama; todo aquele drama daquelas roupas mal ajustadas que não foram feitas para ela e nem usadas por ela na noite anterior.

Tinha outras, diferentes de Marja. As espertas. Pegavam bebidas na conta dos homens menos espertos e iam embora.

Marja me explicou que a comissão era só delas e às vezes a bebida também. Mesmo assim permaneceu ao meu lado sem que eu lhe pagasse ou me pagasse uma única gota. A princípio não entendi, apenas apreciei a consideração.

Aquelas coxas finas transbordavam carência, a mesma carência daquele olhar assustado de quando lhe disse que o que eu queria mesmo era conversar e que, portanto, não seria um bom negócio para ela.

Marja levantou-se para dançar algumas vezes e decepcionada com a minha total imobilidade decidiu permanecer sentada. O que a prendia a mim naquele ambiente que era todo seu? Conversou comigo a noite toda. Me contou de seus homens, lhe contei dos meus. Falamos de homens, sonhos, decepções e sentimentos, como velhas amigas.

Apontou-me sua cunhada. Sim, a irmã de seu homem (aquele que não desconfiava nem de longe de seu real ganha-pão).

- E por que trouxe sua cunhada pra essa vida?

- Era aniversário dela, queríamos beber, a Augusta é o único lugar em que mulher bebe de graça. Além disso estamos muito melhor do que com o tráfico, isso aqui não dá cadeia.

Tive que concordar. Meu amigo se engraçando com a cunhada de Marja e eu a observar o movimento daquele lugar até então oculto na ignorância de meu próprio pudor.

Estava ali por algo muito maior que inspiração. Estava ali para buscar respostas à inveja que sentia delas.

Sentia inveja de mulheres fortes a ponto de comercializarem seu corpo, centradas a ponto de não envolverem sentimentos e ambiciosas a ponto de não se importarem com as conseqüências morais de seu ganha-pão.

Mas a real fonte de minha inveja estava no poder que aquelas mulheres têm. Um poder cruel, um poder sobre a fragilidade, sobre a estúpida fragilidade sexual masculina; fragilidade da qual as boas moças são vítimas, e as más moças são cúmplices. Cumplicidade que não há casal que não busque, cumplicidade que a puta ganha e que a esposa perde no momento da traição.

Perguntei-lhe, então, se haveriam, no mundo, homens fiéis. A resposta veio segura e precisa "De jeito nenhum!". Vieram, então, algumas histórias cabulosas de traições de seus clientes, traições com requinte de perversidade: Um dia após a lua de mel, um dia após desvirginar a namorada....só faltou ser um dia após a morte da mãe...mas aí já seria demais.

- Então seu namorado também te trai?

- Não! meu namorado é fiel...

Comentários a parte, achei fantástica a confiança que Marja tinha em seu homem. Foi uma das coisas mais puras que já pude presenciar. Uma prostituta, imersa nas barbaridades da natureza humana, confiando, contra suas próprias crenças e experiências, na fieldade de seu namorado.

O que mais há pra ser dito? Nesse momento comecei a observar a comanda que me deram, em forma de coração; comecei a observar aqueles homens, alguns envelhecidos e solitários, alguns em bandos; comecei a observar aquelas roupas curtas e olhares carentes ocultos em crostas de maquiagem. Minha inveja passou.

A busca, ali, era amor. Nada mais, nada menos que a busca da totalidade dos cidadãos e apátridas da terra. Talvez em uma visão romântica, talvez... Mas o sexo, as luzes vermelhas e as saias curtas não me pareciam mais do que tolas extravagâncias tentando ocultar barrigas vazias de amor, de todos os tipos de amor.

Marja era como eu. Tinha a exata confiança que eu tinha nas crenças que lhe faziam bem. Tinha as exatas frustrações que eu tinha com a rotina de trabalho. Tinha os exatos sentimentos que eu tinha quando um homem lhe tratava mal...

Naquele dia Marja não trabalhou.

*Os nomes foram alterados para preservar a identidade da personagem.

**Baseado em fatos reais.



Escrito por Flávia Donadelli às 00h30
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Lembranças de Ribeirão...

Saudade daquele cheiro de grama, da terra molhada e dos vinhos noturnos nas praças ribeirãopretanas. Saudade daquelas noites quentes, de nossas roupas rasgadas, daquele gosto ácido e mal elaborado, e das correntes feiosas que pendiam de nossas calças nos fazendo sentir inatingíveis.

Éramos descalços e saltitantes. Sentia meus pés no chão, com a felicidade de pisar em terra fofa.

Saudade da saudade que eu sentia da faculdade, que eu nem conhecia, mas que sonhava, quase do jeitinho arborizado que ela é.

Se, aqui, vou a praça tomar vinho, mesmo que seja um bom vinho, não sinto meus pés pulando na terra fofa da adolescencia auto-suficiente. Aqui fico a observar minhas mãos sem saber onde pô-las.

Saudade dos amigos que me mudaram, mudaram e se mudaram...saudade daquele calor.



Escrito por Flávia Donadelli às 23h20
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