Eulalia, a personagem plana
E como sempre Eulália folheava as paginas da vida.
Eulália não queria um folhetim novelesco, queria literatura.
Eulália queria o autocontrole, queria poder desprender-se daqueles acasos estéreis, que a faziam sentir marionete.
Eulália queria transformar-se de repente em um personagem esférico, que fala e anda com as próprias pernas.
Eulália não queria mais reclamar sua falta de alma. Eulália queria alma, alma em cada centímetro de sua linha da mão.
Eulália não sabia se realizar. Não sabia se realizar, e 'e por isso que não tinha alma.
Eulália era uma pessoa cinza.
Um dia aconteceu de Eulália sentir vontade de comer nozes.
Fez o sinal da cruz e mandou pra longe aquela tentação de se realizar comendo nozes.
Eulália sentiu vontade de escrever um livro, pois, afinal de contas, ainda queria ter alma.
Eulália não conseguiu escrever o livro, suas palavras eram feias.
Eulália pensou em outra forma de se inventar uma alma.
Eulália tentou ter um filho. Mas não teve.
Eulália sentiu-se presa na mediocridade de seu autor.
Eulália comeu todas as paginas, degustou seu próprio livro da vida.
O autor agora não era mais nada, nem mesmo um autor.
O autor sentiu-se sem alma. O autor não sabia se realizar. O autor perdeu seu livro.
O autor comeu as próprias vísceras, e se foi.
A mãe do autor, não encontrou seu filho na cama. Não era mais mãe, nunca havia sido.
A mãe do autor sentiu-se sem alma, e resolveu escrever um livro e ter um filho.
A mãe do autor, não conseguiu, pois ela não tem vontade própria.
A mãe do autor 'e minha personagem.
E eu não quero dar-lhe alma.
Ontem senti vontade de ter alma. Comi nozes, escrevi um livro e tive um filho.
Mas eu não soube me realizar.
Escrito por Flávia Donadelli às 03h44
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