Na loteria biológica: discriminação e hipocrisia
Minha oração a partir de hoje é aprender a ser Gente.
Preciso me tornar Gente pra não sofrer tanto, ou pra sofrer tanto mas melhor.
Quero apenas me abraçar com meu cacho de valores em uma parreira de esperanças, e ficar bem quietinha, esperando a morte chegar.
Mas é pena, é pena mesmo, que o mundo não deixe, pois ele nos chacoalha, chantageia, propagandeia, vira de ponta cabeça, tiroteia, pra ver se a gente solta o cachinho, pra derrubar nossas uvas. Quando a gente solta, ele nos prende de imediato nas algemas do Sem-Chão. Sem-Chão é um cárcere rico, tem veludo nas paredes, é climatizado, tem cheiro de novo....e o prazer de estar preso lá te dá hormônios saltitantes.
Entretanto, o buraco está mesmo é mais embaixo, o som dessas moedas, imagens, ideais desejos, não contenta, e insiste, e tem inflamação num fundo-dum-mundo da alma que não se sabe em onde bem.
É...não é fácil não...a vida é áustera mesmo, a hipocrisia é dor quando por um átimo de descuido nos olhamos no espelho.
A loteria biológica presenteou-me não só com casa, escola, roupa, livros, pernas, olhos, barriga cheia e diversão.Presenteou-me com a mais bem escolhida hipocrisia enlatada desse nicho social. Com o racismo demente de modos, conhecimentos e oportunidades.Com a pré-avaliação da imagem.Com o ódio pela coletividade fétida desse país que me renega e renego, que me mata e exploro, que despeja e moro. E que não pode me ler por culpa minha e sua e deles e delas.
Minha vontade mais fácil era fugir disso, no ar-condicionado de teatros lacrados, no devaneio de sonhos noturnos, na alienação dos meus amiguinhos bonitos e das minhas drogas caras.E por que não?
Então, vem aquela demente doença do meu busca-vida e me chama a querer ser mais verdade, me arrasta pr'esse rio de fezes que vejo atrás do espelho, e me faz ter essa besta ,ou não besta, vontade de ser tudo, toda.
Só sei que se não for assim,só me resta, em meu cárcere, continuar esse não-Gente, presa nas minhas banhas, e meu tudo de nada valeu.
Escrito por Flávia Donadelli às 23h43
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