Um breve conto
O sol escaldava hirto àquelas idéias tranquilas de homem velho. Ele tinha passos firmes porém a cabeça ia sempre baixa a procurar as Pegadas naquelas dunas movediças.
Deixara para trás a cruz pesada que acreditou ser necessária e carregou por um longo tempo. Agora as idéias vinham mais livres e davam piruetas diante de seus olhos fundos. A cruz era de fino mogno e tinha entalhes de ouro mas ele resolveu queimá-la em uma madrugada muito fria, acompanhada por alguns livros que em muito dificultavam seus movimentos.
Andava agora, apenas com sua manta negra destoando dos ofuscantes tons daquele deserto refletor, recebendo calor e doando gotas de suor àquela areia árida.
Não se lembrava mais de como e por que chegara ali, não se lembrava mais do seu destino e nem se algum dia já tinha tido algum. A cada nova curva porém algo sentia que podia ser chamado de angústia...ou expectativa, exatamente como ocorreu ao afrontar-se com sua primeira curva.
Às suas costas, as milhas percorridas davam-lhe uma obscura sensação de nostalgia apesar da monotonia do cenário, do vento ininterrupto e da areia voadora que aos poucos cegava-o.
Adquirira grande habilidade na captura de lagartos e não amedrontava-se mais com os escorpiões negros.
A busca pelas Pegadas havia tornado-se mais lenta nos últimos anos pela progressiva perda da visão e pelas imposições dolorosas da idade, mas não cessaria...não cessaria agora que ele já se acreditava tão perto de encontrá-las.
Escrito por Flávia Donadelli às 15h11
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