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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 20 a 25 anos


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Minha saúde mental depende disso.


Não, não preciso de leitores. Talvez qwert tenha razão.

Preciso apenas de palavras novas, de pensamentos novos, de manhãs novas com sóis novos.

Essa mania de mudança me deixa enraizada nos eternos começos. Começo algo e já não me basta, me sufoca, me antecipo.

Então pulo para um outro começo que parece mais promissor, mas que não deixa de ser começo, e nunca tenho poemas até o fim.

Já estou há seis meses com a mesma profissão, com a mesma casa, com a mesma rotina. E as mudanças como diabinhos cochichando em meus ouvidos...

Queria ao menos poder fazer arte. Algo que me libertasse do cotidiano miúdo mesmo que continuasse com ele.

Meus sonhos se chocam com a minha rotina como bolas de bilhar. Os dias passando, as notícias passando...e a inspiração engasgada na minha garganta como a secreção daquela tosse mal sarada, que insiste em não ir nem ficar.

Se ao menos eu pudesse fazer arte, qualquer uma. Se meu nariz pudesse respirá-la, nem que fosse a arte de lavar louça ou de pegar um ônibus.

A arte que falta está em meus olhos e ouvidos viciados pelo tédio. A arte que falta esteja talvez na falta de aplausos, não os que eu recebo, mas os que eu dou.

E dos leitores que eu talvez precise, mesmo, o que me falta é o intusiasmo de escrever.



Escrito por Flávia Donadelli às 01h36
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eu não tenho mais leitores



Escrito por Flávia Donadelli às 16h25
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Querendo voltar

Querendo voltar às origens. Querendo voltar à espontaneidade. Querendo voltar, voltar ao que eu perdi em algum lugar e não sei o porquê. Querendo ouvir músicas velhas, andar descalsa, comer mingau, usar roupas de algodão.

Querendo esquecer o hoje, chato, o hoje é chato. Eu não ando mais descalsa. Minhas roupas são sintéticas.

Querendo esquecer que me esqueci de você, esqueci o que era aquilo, e aquilo o que era?

Querendo lembrar que eu era tanto, tão, tudo. Havia sol, havia ossos expostos pois eu não precisava comer. Me alimentava de vida, a energia vinha de dentro.

E sempre esse hoje tão chato. Preciso voltar. Onde estou?



Escrito por Flávia Donadelli às 16h21
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Opt out

Não, eu não estou parada. O mundo só me vê parada por estar fora de meu estômago, e fora de minha mente. Meu desemprego é meramente um fato formal a ser comunicado às estatísticas do governo. O trabalho todo apenas começou.

Dias e dias de fazer aquilo que a princípio não se quer, pela dificuldade do trabalho e total ausência de remuneração, mas que foi uma escolha consciente, uma escolha escolhida.

Minha escolha foi me permitir escolhas (e repito ainda essa palavra por ela ser tão linda) e se meus passos me levarão ou não a algum lugar ainda não é hora de saber.

Vou tentar apenas manter-me tentando por tempo suficiente para conseguir, e isso pode demorar. Vou tentar apenas me manter tentando olhar sempre para o mesmo ponto distante e intocável do horizonte e nada mais importa, nem a fome, nem a falta de lazer porque a vida em si, acabei de começar a vivê-la no momento em que escolhi escolher.

Se estivesse em posição de dar conselhos diria, largue o trabalho, dedique-se ao que gosta. Se estivesse em posição de dar conselhos diria: a fome compensa a recompensa de poder sair sem olhar pra trás. Não há lazer maior que esse.

 



Escrito por Flávia Donadelli às 13h08
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E há alguns momentos na vida em que você não serve pra nada, não é nada, nunca fez nem soube fazer nada.

Alguns momentos em que você não é nem funcionário, nem é ruim o suficiente para ser um estagiário. E então você não é alvo.

Você não é padrão, você não é procurado, você não existe. E então você passa a se perguntar o que essa mania de rótulos trabalhistas fez de você.

Nada.



Escrito por Flávia Donadelli às 21h51
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E talvez não fosse mesmo pra ser. Porque quando se quer não se é. Querer muito é querer errado, atrapalha o conseguir. E aí penso muito espero muito pergunto muito sonho muito muito errado. Ligo, abano a bandeira, penso, espero, anseio, quero.

Tem alguma coisa nas conspirações do universo que não te dão se você acha que consegue, se deseja errado, se se acha capaz.

E nada virá, nada vem, quem mandou...quem mandou querer demais?



Escrito por Flávia Donadelli às 21h22
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Tédio Existencial

E não sei se são os ares poluídos da cidade grande, longos anos de namoro, um emprego chato ou simplesmente minha falta de objetivos.

O que sei é que apenas acordo e já começa a corroer minhas entranhas uma preguiça generalizada de viver.

O mesmo ônibus, o mesmo caminho, o mesmo trabalho, a mesma falta de emoções diárias.

Uma vida que me faz olhar feio e ser feia por falta de ser feliz.

E não é o trabalho, não é o namoro, não é o trânsito (mas talvez seja). Não é o sapato velho nem o cabelo arrepiado.

Se tudo muda, e vou pra Etiópia, dançar Ula Ula de sainha multicolorida, a vibração brilhante da novidade rapidamente me escapa dos dedos como água corrente. 5 minutos de novidade já faz com que ela seja antiga demais.

E então não sei mais se sou eu, a civilização judaico-cristã ocidental ou a vida de barata de kafka e do homem moderno.

Apenas me jogo no sofá, me entupo de chocolate e vou dormir mais uma vez.



Escrito por Flávia Donadelli às 13h20
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domingueira...

E quem foi que disse que se vim ao mundo devo servir de algo, fazer algo bem feito, que me realize, preencha, invente?  Quem quer que o tenha dito só o fez pra me enlouquecer.

Deve ser mesmo apenas essa maldição sem fim, sem encontro.

 Essa neura que nos persegue de domingo à noite e que me faz ver que sou tão apenas essa vírgula estéril de mundo; esse pedaço de pausa no turbilhão; essa parte do longo romance que não é ação, nem descrição, nem personagem.

Porque mesmo se eu tivesse janela pra abrir, paisagem pra apreciar; mesmo se eu tivesse todo o tempo do mundo pra apontar meus lápis e pensar em ser eu, em ser, em a cada monótona hora do dia, todinha e desnecessariamente autêntica....achar não é a resposta. Achar é esse maldito desencontro domingueiro, em que você entende o quão estupidamente desnecessária está sua vida e o quão estupidamente infeliz ela te faz.

Um desencontro comigo, com o ontem e com o amanhã que terminou e tem que continuar sem me dizer nada de novo. Sem me dizer sim nem não, nessa apatia e nesse silêncio enlouquecedor de um professor querendo que você descubra as respostas sozinho.

Sem mais nem menos. Mais um amanhã vai começar sem o gosto da novidade, sem o gosto da certeza nem da dúvida, sem gosto, só isso.

E depois quando acordo na segunda com a leve ressaca mal curada das respostas que insisti em procurar, fecho os olhos, chego ao trabalho em ponto, continuo a vida do ponto errado em que tinha parado na sexta anterior, sem mais nem porquês, e ponto.



Escrito por Flávia Donadelli às 01h38
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E quando voltei senti apenas a brisa de seu perfume no ar de minha sala. Um perfume de quem acaba de sair...empolgadíssimo com as possibilidades de uma viagem excitante.

Um perfume passado para tudo outro que não eu.

O perfume que se o mundo real me permitisse prenderia com grilhões de vidro, aprisionaria numa redoma estreita, paradisíaca e absolutamente, infinitamente, estupidamente minha.

Não sei se tenho que me contentar com as imperfeições desses ódios que me surgem...dessa loucura que me atasana, dessa fraqueza que me maltrata. Não sei se me contento em não demonstrar o ódio, pois não senti-lo acho que já não sou eu. Não sei se sou normal, ou se a normalidade que se foda e sou mesmo uma louca possessiva.

Não me interessa para onde as estripulias de seus acordes os levem. Não me interessa o maldito show, do maldito evento, da maldita coisa que já tinham me avisado com antecedência mas que não posso ir. Só me interessa não querer saber, não querer pensar. Aumentem a música, joguem sal nos meus olhos, me rodem, até eu cair sem sentidos, dormindo até amanhã.

Me dopem, me escondam, me enganem. Mas não me façam sentir o perfume de uma felicidade que não posso tocar, nem ver, nem imaginar, nem participar. Não me façam nem mesmo pensar nessa felicidade que me corrói as tripas. Mais uma vez. Não me deixem só com ensaios de um espetáculo inexistente, inexistente para mim. Me tirem da mesa das crianças.

Nos cantos escuros da minha redoma perfumada proibiria tudo isso. Proibiria esses adeuses malditos. Essas viagens que me deixam loucamente possessiva, solitária, paranóica.

Seus shows seriam meus, só meus, tão meus. Todos para mim.



Escrito por Flávia Donadelli às 22h44
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Eu tinha achado meu príncipe encantado. Vieram nuvens, perdi o vulto de sua perfeição. Não consigo saber o por quê. Procuro problemas onde eles não existem ou procuro apenas não fugir dos problemas que existem?

Escolhi há 3 anos o amor constante, o amor-amigo, o amor eterno. Perdi, no meio do caminho, as entrelinhas da decisão. Hoje me lembro apenas da conclusão, me esqueci dos argumentos. Das conversas de bar e das defesas acaloradas do amor perfeito, me restou um amor silencioso, sem defesas, sem calor.

E tanto que me dói, que nem me entendo. Se dói porque eu quero, não devia doer. E se quero por que dói?

E do que é que sinto falta? E do que me lamento¿ da perfeição a que nos submetemos? A filosofia de deixar-te é um grande perder, te deixo porque te perdi dos meus sonhos. Porque perdi dos sonhos a idéia de que o amor é pra sempre, e de que as vidas vão andar sempre lado a lado quando se ama.

Eu poderia me conformar pra sempre com a calmaria de nossa vida, com a segurança de seus abraços, com a certeza. Mas algo me torna estupidamente insatisfeita. Algo me torna estúpida e insatisfeita.

 



Escrito por Flávia Donadelli às 23h01
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E então quando escrevo sou eu; sou tão eu que chego a doer. Não tem sorriso torto, não tem risada sem graça, olheira, some o esforço em agüentar a vida, eu mesma, os outros. Todo aquele esforço em criar comentários, aquele esforço de ser e estar entre os demais, no almoço, na janta, some. Aqui eu sou sem querer nem pedir. Sem nem poder...mas a tela foi feita em branco pra isso, para os desafios.

E em estar tão sozinha e silenciosa consigo ouvir tantas vozes que me confundo. E essas vozes brotam como explosões que contive, que matei e multilei, pois é só o que me resta fazer ao suportar terças-feiras. O convite surge e posso pintar minhas cores, que nem são tantas, mas são primárias.



Escrito por Flávia Donadelli às 23h29
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O que faz você feliz? Eu queria um projeto de pesquisa que não foi aprovado. Uma porta se fechou e 2 se abriram, agora estou em dúvida, continuo batendo na porta trancada e não consigo andar. Mesmo que me decidisse por escolher uma das portas aparentemente abertas não saberia em qual delas entrar....e as minhas amigas dúvidas continuam a me acompanhar.

Mas acho que já me decidi.



Escrito por Flávia Donadelli às 10h58
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Falta de objetivos, somebody save me!

Escrito por Flávia Donadelli às 12h36
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Uma das melhores fases da minha vida; talvez a melhor. Desculpe, hoje não tenho reclamações. Hoje não tenho drama. Hoje estou sendo feliz.

Escrito por Flávia Donadelli às 04h46
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Procurei em um milhão de poetas uma expressão pra minha alegria inflamada, pra minha tristeza periódica ou pra minha apatia incontrolável.

Hoje não consegui encontrar.

Procurei a verdade em uma manhã de sol, em território estrangeiro e gélido. Procurei ouvir o assobio compulsivo dos pássaros em momento pré-primavera, mas não me encontrei.

Busquei músicas, palavras sábias, conselhos aleatórios que pudessem me definir. Mas minha alma continuou esse mar inalcançável de contradições quotidianas e busca indefinida.

Fui recorrer, desesperançada, a crenças, cultos e segredos; mas além da aventura antropológica de observar a fé, terminei sem respostas.

E não faz mal se me realizo na biblioteca, se um dia que acordo mal humorada os livros não me entendem. E não faz mal se amo, adoro, estimo; se estou sempre a perder-me nas dúvidas ou na saudade.

O que faz mal então dever ser permanecer feliz e bobo por tempo que exceda a validade das inadaptações. O que faz mal, então, deve ser não se buscar. Não se perguntar diariamente: quem sou eu?... mesmo se já saibamos que não virão respostas outras que mais perguntas.



Escrito por Flávia Donadelli às 12h13
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Homenagem

E por que é que nossas histórias têm que ter um fim?

Nossos corpos, máquinas frágeis. O dia chega, e a partida vem. Nunca esperamos, apenas sentimos sinais sutis, que nossa natureza saturada nos impede de ouvir.

A saudade fica, ficam todos aqueles que têm que sentir a dor, sem enteder o porquê. Privilegiados são os que fizeram a viagem antes, e puderam conhecer o caminho, e voltar para dar a mão aos que vão.

Privilegiados os que podem estar hoje em companhia dos que não podemos.

Uma vida de vitalidade. Uma vida de alegria, energia, paz. Uma das vidas que me deram a vida. E mais uma vida que não posso acompanhar, que não posso observar, de que não posso participar. Simplesmente porque a lei é essa e alguém quis que as coisas fossem assim.

Fico com a dor e a alegria de te saber feliz. De te saber feliz como sempre foi, onde quer que esteja.

Fico com o desconsolo, com o desconsolo e com a incompreensão, que é só o que podemos ter.



Escrito por Flávia Donadelli às 22h28
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Existiria literatura em esperanto? Literatura precisa de algo além...algum molejo que só sua língua mãe pode te dar...não sei, talvez eu esteja errada.



Escrito por Flávia Donadelli às 20h35
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Minha língua é insuficiente, minha comunicação é pobre. Tenho muito pra pintar e pouca tinta disponível. Tenho muito pra bordar mas estamos sem linha e sem tela. E como era mesmo aquele pretérito mais que perfeito?

E então me torno uma massa humana amorfa, sem expressão. Não se expressar é morrer. Não se expressar é morrer.

Desenvolvo habilidades sobrenaturais com gestos e expressões faciais universais tentando resgatar meu lugar de ser humano comunicante. Canadenses compreendem sorrisos e olhares confusos, mas não minha poesia.

Os seres humanos precisam aprender o esperanto na escola. É tudo uma questão de aprender e quanto mais aprendo mais me é possível ser. Se não falo não penso, se não penso não sou, se não sou não falo e por que precisam existir tantas línguas se somos sempre as mesmas pessoas em inglês ou espanhol?



Escrito por Flávia Donadelli às 02h51
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E então cotinuamos a buscar nossa felicidade, onde quer que seja, na China, no Brasil ou no Polo Norte. Engraçado que quando a vemos de longe e voamos ao seu encontro ela resolve mudar de lugar. Como uma miragem para camelos sedentos. Como a cenoura na ponta da vareta. Angústia ou motivação? Está a gosto do freguês...

A neve em meus olhos me mostra um arco-íris de possibilidades mas me esconde o futuro. 

Na verdade ele ainda não existe, e quando me dou conta disso percebo o peso do hoje. Hoje é a hora de fazer planos, a hora de sonhar sonhos impossíveis, a hora de querer ser feliz.

Amanhã me dispara o coração. Ontem me dá saudade, ontem me traz dúvidas sobre hoje, mas ontem, não importa.

Então se revigora a vontade de buscar, planejar, realizar. Realizar o que quer que seja, uma viagem a mais, um evento, uma vida nova. Uma cachoeira de possibilidades começa a despencar diante dos meus olhos, e todas me parecem tão possíveis quanto prováveis. Excesso do sonhos ou falta de foco, quem se importa? Nossos currículos são construídos tanto de sonhos dourados quanto de oportunidades inesperadas....e de repente chega uma oportunidade que acaba virando um sonho.

Só preciso de um novo objetivo e tudo ficará bem. Quando será, onde será, em que resultará?

Me deram uma vida pra viver...então não importa se é domingo a noite ou fim de festa. Preciso realizar e tenho pressa de saber o que.



Escrito por Flávia Donadelli às 02h32
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Cordéis da retirante sertaneja

São Paulo te observa, te cutuca, te revolta.

São Paulo te maravilha, te apavora, te odeia.

20 milhões de habitantes disputando a sua mesa, o seu banco de ônibus, o seu elevador. Pisoteadores de ruas. Gafanhotos em caixas de fósforos.

240 vizinhos, além do morador do viaduto ao lado e tudo que conheço deles é a irritação que me causam. Cada gafanhoto em sua caixa, cada caixa em seu caixote. São Paulo te abarrota, São Paulo te odeia.

Não tem brisa do mar, mas tem água de côco. Não tem animal, mas tem muito bicho. Tem lugar pra ir? Eu só não sei chegar. Nem ia dar tempo mesmo...

Vamos aprisionar as árvores nos parques municipais, vamos aprisionar pessoas nas caixas de concreto e podemos estragar o resto, cuspir no chão, quebrar os vidros.

Não tem montanha mas tem chalé e chocolate quente. Tem lareira, frio, calor, sorvete e neve em 24 horas.

Me vende um quilo de equilíbrio por favor? Vcs entregam em casa? Que ótimo!

7 empregos por semana. 24 lugares novos por dia. 60 olhares em um minuto.

Passou do ponto. Preciso descer.

 



Escrito por Flávia Donadelli às 21h52
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E o que são esses idiotas que usam óculos e acham que são cultos?

A favela se diverte muito mais.

"Eu só bato cabeça pra vovó!! Eu só bato cabeça pra vovó!! Sossego vc não tem, e também não é feliz, o medo de ficar pobre não deixa vc dormir! Se prevalece da riqueza e faz o pobre sofrer! Sou pobre mas sou teimoso, eu não bato cabeça pra vc" "Olha aí é com vovó, eu só bato cabeça pra vóvó!" Bezerra da Silva



Escrito por Flávia Donadelli às 22h09
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Há algumas sextas-feiras fui a um bordel buscar inspiração para os meus escritos, algo que me fizesse sentir ou pensar. Estou trabalhando em algo mais elaborado, mas vou lhes mostrar, meus raríssimos leitores, o que consegui fazer até agora.

HISTÓRIAS DE UM BORDEL

Marja* era Julia* e Julia era Marja.

Eu? Eu era um ente estranho que não era homem nem puta.

Marja tinha sido presa, tinha apanhado filho e apanhado do marido de quem apanhou filho pra perder o rebento. Marja era drama; todo aquele drama daquelas roupas mal ajustadas que não foram feitas para ela e nem usadas por ela na noite anterior.

Tinha outras, diferentes de Marja. As espertas. Pegavam bebidas na conta dos homens menos espertos e iam embora.

Marja me explicou que a comissão era só delas e às vezes a bebida também. Mesmo assim permaneceu ao meu lado sem que eu lhe pagasse ou me pagasse uma única gota. A princípio não entendi, apenas apreciei a consideração.

Aquelas coxas finas transbordavam carência, a mesma carência daquele olhar assustado de quando lhe disse que o que eu queria mesmo era conversar e que, portanto, não seria um bom negócio para ela.

Marja levantou-se para dançar algumas vezes e decepcionada com a minha total imobilidade decidiu permanecer sentada. O que a prendia a mim naquele ambiente que era todo seu? Conversou comigo a noite toda. Me contou de seus homens, lhe contei dos meus. Falamos de homens, sonhos, decepções e sentimentos, como velhas amigas.

Apontou-me sua cunhada. Sim, a irmã de seu homem (aquele que não desconfiava nem de longe de seu real ganha-pão).

- E por que trouxe sua cunhada pra essa vida?

- Era aniversário dela, queríamos beber, a Augusta é o único lugar em que mulher bebe de graça. Além disso estamos muito melhor do que com o tráfico, isso aqui não dá cadeia.

Tive que concordar. Meu amigo se engraçando com a cunhada de Marja e eu a observar o movimento daquele lugar até então oculto na ignorância de meu próprio pudor.

Estava ali por algo muito maior que inspiração. Estava ali para buscar respostas à inveja que sentia delas.

Sentia inveja de mulheres fortes a ponto de comercializarem seu corpo, centradas a ponto de não envolverem sentimentos e ambiciosas a ponto de não se importarem com as conseqüências morais de seu ganha-pão.

Mas a real fonte de minha inveja estava no poder que aquelas mulheres têm. Um poder cruel, um poder sobre a fragilidade, sobre a estúpida fragilidade sexual masculina; fragilidade da qual as boas moças são vítimas, e as más moças são cúmplices. Cumplicidade que não há casal que não busque, cumplicidade que a puta ganha e que a esposa perde no momento da traição.

Perguntei-lhe, então, se haveriam, no mundo, homens fiéis. A resposta veio segura e precisa "De jeito nenhum!". Vieram, então, algumas histórias cabulosas de traições de seus clientes, traições com requinte de perversidade: Um dia após a lua de mel, um dia após desvirginar a namorada....só faltou ser um dia após a morte da mãe...mas aí já seria demais.

- Então seu namorado também te trai?

- Não! meu namorado é fiel...

Comentários a parte, achei fantástica a confiança que Marja tinha em seu homem. Foi uma das coisas mais puras que já pude presenciar. Uma prostituta, imersa nas barbaridades da natureza humana, confiando, contra suas próprias crenças e experiências, na fieldade de seu namorado.

O que mais há pra ser dito? Nesse momento comecei a observar a comanda que me deram, em forma de coração; comecei a observar aqueles homens, alguns envelhecidos e solitários, alguns em bandos; comecei a observar aquelas roupas curtas e olhares carentes ocultos em crostas de maquiagem. Minha inveja passou.

A busca, ali, era amor. Nada mais, nada menos que a busca da totalidade dos cidadãos e apátridas da terra. Talvez em uma visão romântica, talvez... Mas o sexo, as luzes vermelhas e as saias curtas não me pareciam mais do que tolas extravagâncias tentando ocultar barrigas vazias de amor, de todos os tipos de amor.

Marja era como eu. Tinha a exata confiança que eu tinha nas crenças que lhe faziam bem. Tinha as exatas frustrações que eu tinha com a rotina de trabalho. Tinha os exatos sentimentos que eu tinha quando um homem lhe tratava mal...

Naquele dia Marja não trabalhou.

*Os nomes foram alterados para preservar a identidade da personagem.

**Baseado em fatos reais.



Escrito por Flávia Donadelli às 00h30
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Lembranças de Ribeirão...

Saudade daquele cheiro de grama, da terra molhada e dos vinhos noturnos nas praças ribeirãopretanas. Saudade daquelas noites quentes, de nossas roupas rasgadas, daquele gosto ácido e mal elaborado, e das correntes feiosas que pendiam de nossas calças nos fazendo sentir inatingíveis.

Éramos descalços e saltitantes. Sentia meus pés no chão, com a felicidade de pisar em terra fofa.

Saudade da saudade que eu sentia da faculdade, que eu nem conhecia, mas que sonhava, quase do jeitinho arborizado que ela é.

Se, aqui, vou a praça tomar vinho, mesmo que seja um bom vinho, não sinto meus pés pulando na terra fofa da adolescencia auto-suficiente. Aqui fico a observar minhas mãos sem saber onde pô-las.

Saudade dos amigos que me mudaram, mudaram e se mudaram...saudade daquele calor.



Escrito por Flávia Donadelli às 23h20
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Esse dia tremendamente frio me convida a não conseguir sair de casa. Em pensar que o mundo está girando e eu aqui em casa.

Tenho um certo problema com não sair de casa, com não fazer nada, mesmo e principalmente em dias frios. O tédio é meu primeiro estágio antes da depressão. E então tento estudar...mas estudar é meu segundo estágio antes da depressão.

Não que eu não goste do que eu estudo...o mais estranho é que eu gosto. Tenho raiva de tudo que tenho que fazer por obrigação. Até comer chocolate por obrigação me daria raiva.

Quando leio um livro de arte, de literatura, de doenças infecciosas ou de qualquer baboseira diferente me sinto estupidamente feliz. Mas se o livro de arte for pro meu trabalho de história da arte que tenho que entregar daqui a 2 dias perde toda a graça;

Descobri que a faculdade tira todo o prazer do estudo. A faculdade não faz o menor sentido.

Me sinto afobada. Sou afobada. Se todos os dias fossem domingos eu enlouqueceria em uma semana. Não acredito que perdi o filme....o filme que era de graça e salvaria meu dia inútil!

Não acredito...



Escrito por Flávia Donadelli às 18h12
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E pra mim era tão importante que agora não consigo dormir!

O dia dos namorados foi inventado por um publicitário para estimular as vendas do mes de junho. Deveria eu ter insônia por uma coisa tão estúpida?

Todo esse apelo romântico me deprime profundamente...até parece que eu nem tenho namorado!

Queria não ligar, queria não precisar, nem é materialismo, é carência....

Coisas estranhas acontecem na cabeça das mulheres, é como se eu não fosse valorizada porque em um dia estúpido do ano não ganhei nem sequer um beijo especial. Eu sei que não é, mas minha cabeça não acompanha a racionalidade das coisas! Sim, sou idiota.

O prestígio é vital...e se não for hoje porque haveria de ser amanhã? É claro que é jogo publicitário...mas eu não queria nada material, queria apenas romantismo, queria apenas qualquer coisa idiota.



Escrito por Flávia Donadelli às 01h16
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Sim, acho que finalmente consegui enlouquecer. Não estou fazendo nada, não consigo fazer nada, a desmotivação é tão intensa, chega a doer como me doem todas essas doenças tolas. O tédio é tão avassalador, o tédio é o pior de todos os sentimentos. Não sei mais me divertir. Distanciar-me dele é tão terrível, ainda mais quando sei que ele está se divertindo sem mim, enlouqueço! Estou em casa, estou donte, não posso sair e beber, e é o que mais preciso. Me sinto tão eremítica. Não esse texto não é pra ficar bom, esse texto é emergencial, precisa ser feito

Escrito por Flávia Donadelli às 21h53
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Me sinto pequena com grandes olhos assustados,

me recolho dentro da minha própria má adaptação.

É como se meu jeito todo de ser fosse meio torto, meio disforme.

É como se minha mão fosse grande demais pra saber onde colocá-la.

Como se minha voz nunca acertasse o tom da conversa casual.

E então tento me encasular, não gosto do meu jeito estranho.

Não sei ser natural nem sorrir. Mas vou vivendo.



Escrito por Flávia Donadelli às 21h00
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O tempo sai voando antes que eu tenha tido tempo de me divertir.

Minha vida de arrastar-me de um prédio para o outro com meus tênis velhos e meus cabelos arrepiados me cansa. Agora resolveu fazer frio e além de tudo tenho comido como uma draga.

É tudo culpa do trabalho maldito que tenho que entregar amanhã e que estou enrolando até conseguir escrever 5 páginas sobre absolutamente nada que tenha saído da minha cabeça.

As vezes acho que nunca poderei ser levada a sério. Uma pessoa séria faz trabalhos sérios. Uma pessoa séria estuda e aprende.

Eu me especializo cada vez mais em preencher linhas vazias por não saber nem de longe do que estou falando. (sempre naquela esperancinha tola de que o professor não vai ler e que só vai contar as páginas).

A quem é que estou enganando?!?! deveria eu fazer matérias do último ano de direito sem nem saber direito o que é direito?!...e aí fica essa lenga lenga de fazer trabalhos estúpidos, estúpidos como eu, que nem consegue mais ir nas aulas boas pra ficar fazendo trabalhos estúpidos!

 



Escrito por Flávia Donadelli às 22h31
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É uma doença, não pode ser outra coisa.

Rumores de voz feminina por perto, nomes que não conheço, e parece que engoli 5 quilos de pedra.

Se amarra meu estômago, minha respiração se contrai, rápida e curta, minha boca certamente se franze em milhões de pregas e perde sua cor.

Passo a sentir ódio, passo a sentir um seco e ácido descontrole.

O ódio é antes de tudo por mim mesma. Me olho e me acho repugnante, tenho vontade de arrancar meus cabelos, fio a fio, e depois de cravar cacos por baixo de minhas unhas quebradas.

Sinto ódio por amar, sinto ódio por ser vulnerável a esse amor, sinto um ódio generalizado pela espécie humana e principalmente pelos homens, sinto vontade de arranjar um cachorro. Tudo me faz vir lágrimas aos olhos, a lembrança da forma como fui tratada, aquela voz feminina...aquelas perguntas sem resposta:

- Ana, quem é Ana?!

- Uma amiga.

- De onde, da faculdade?

- Não, da vida....um dia vc vai conhecer.

Que tipo de amiga não provém de lugar algum?! Que tipo de amiga é DA VIDA e aparece apenas quando sua namorada está viajando?

Prefiro dopar-me com 5 litros de whisky barato a ter que ligar outra vez.

Por que não consigo me controlar? Por que preciso sofrer tanto assim!? Será falta de amor próprio? Será excesso de desconfiança?! Onde encontro a medida? Onde moram as respostas? Qual deve ser a dosagem?!?!

FANTASMAS!



Escrito por Flávia Donadelli às 23h10
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De que servem meus recados tolos que jogo aqui nesse nada virtual?

 



Escrito por Flávia Donadelli às 01h56
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Me dá tua mão, vamos ao baile.

Nossos dias são poucos para vivermos tão sós.

Vamos, ponha seus sapatos novos!

Amanhã pensamos em nos sentir mal.



Escrito por Flávia Donadelli às 01h54
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Descobri que não há música no meu sangue. Fui feita apenas para apreciá-la, e aprecio. Minha arte é feita de mal estar, seja nos olhos angustiados da pintura, seja nas letras mal acabadas daqueles cadernos todos. Agora sei, e o que sei é aquilo que aprecio. Aprecio a dedicação pois não acredito em talentos, aqueles talentos são apenas a angústia das próprias noites mal dormidas. Aquelas do espectador sedento e mal amado. Talento é o nome da inveja de que quem não teve saco, ou alma pra se dedicar.

Escrito por Flávia Donadelli às 01h47
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Depois do fim, sinto como se eu pudesse ter sido mais. Tão mais que chego a extrapolar-me na idéia.

A idade era jovem, como ainda hoje, mas a mente era insuficiente demais para o tanto que me promovi.

Me atirei, apenas com amarras frouxas. Desnecessário criar alma dessa maneira. Tão mais fácil teria sido ter ficado. Tão mais sóbria teria sido a espera do momento exato, tão mais nítido teria sido o momento, se certo.

Esculpi-me com tons exacerbados na proposta, exacerbados no dispêndio, exacerbados em sua total falta de propósito.

O que sabe uma criança do que quer que possa vir a acontecer-lhe? Uma criança, era tudo. Porém havia mais coragem.



Escrito por Flávia Donadelli às 01h38
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Clarice Lispector: Olá Flávia, o que acha de minha obra?

Flávia: Acho eu.

Clarice Lispector: Como assim?

Flávia: Essa coisa.



Escrito por Flávia Donadelli às 22h14
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Dor de Rim

Cacilda organizava seus dias por temas. Toda semana havia o “dia beleza”, no qual ela precisava sentir-se bela; o “dia bondade”, no qual ela doaria sua alma se fosse preciso e, entre outros, o “dia mau-humor”, alocado de praxe na injustiçada segunda-feira. Assim a vida corría-lhe agendada e metódica, os dias com sua face conhecida e branda no desenrolar de um cotidiano programado.

Era manhã fria de um maio apressado quando resolve aparecer a novidade. Surgiu, de súbito, antes mesmo do despertador tocar, o dia “dor de rim”. Primo-pobre do dia “cálculo renal”, intransigente, mal-amado roubador de outros temas.

A princípio o dia “dor de rim” foi taxado como mero representante-subalterno do “dia mau-humor”, a taxação, porém, não durou muito. Rapidamente a altivez daquele novo tema foi suficiente para ganhar seu próprio dia, registrado em agenda e carimbado como inesquecível.

Daí em diante nada mais foi inédito. O dia “dor de rim” ganhou sua rotina e expressão próprias, sentiu-se até soberbo o bastante para querer ter espaço semanal garantido por vezes com arrogantes repetições consecutivas.

Dizem ser, a cólica renal, uma dor comparável à dor do parto. Cacilda não tinha filhos e nem queria tê-los. Seus freqüêntes partos renais já presenteavam-na com suficientes emoções.

Ao chegar ao lugar destinado àqueles dias, Cacilda sentava-se em sua cadeira de rodas e suplicava aos enfermeiros sua prece matinal por analgésicos. Vivia então a dor reticente que as drogas lhe proporcionavam enquanto aguardava os cuidados médicos.

Amargava o choro da criança como se fosse o seu, a vontade era berrar e o ranger dos dentes não bastava. Percorria a escala cromática possível, passava de vermelha para amarela e depois chegava ao branco. Alguns diziam que Cacilda ficava verde...Eu com meus parcos conhecimentos biológicos não me inclino nem um pouco a acreditar. É natural que, no calor intenso da dor, Cacilda tenha se sentido verde de tão dolorida, pode ter visto rostos deformados e tido alucinações enquanto a próxima injeção analgésica não chegava...mas verde não, meus senhores, verde não pode ser possível.

Por vezes o dia “dor de rim” roubava o posto do “dia bondade”. Nesses momentos Cacilda não só se esquecia de ser educada e caridosa como desenvolvia a postura inversa. O amargor nas mulheres é uma coisa muito mais difícil de conter que quando ele vem aos homens.

“Seres maternais deveriam ser sempre doces” comenta o médico em uma crítica desdenhosa ao humor da mulher. Cacilda escolhe outro médico. Espera outro par de horas e fala com o médico mais mudo do corredor. Refere-se, sonolenta e dopada, ao feijão doloroso que brotou em suas costas bem no dia errado, bem nas 24 horas destinadas para o amor ao próximo.

Após vários dias roubados de outros propósitos, Cacilda esquece que antes quis ser bela e bondosa, esquece até que quis ser mau-humorada ao menos uma vez por semana. Não sabe mais regular seu calendário e a passiva sensação de impotência resolve formular por si só um plano. A partir daí a vivenciará a dor como se fosse um tema pré-determinado.

Passa, então, ao controle de seus temas novamente, ou melhor, de seu único tema: a dor. Vive tão intensamente a graça de poder doer, que dói de felicidade a cada novo dia, dói de bondade, dói de beleza, dói de paciência; uma paciência de dar dó...dó ou desespero; um desespero de doer, mas enfim... o tema era dela, todo escolhido por ela.



Escrito por Flávia Donadelli às 13h56
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Atirada aos vermes, fungos e bactérias. Cambaleando e cabeceando as paredes que se encontram pelo meu caminho. Brigando sem dizer uma palavra.

Recebi todos esses pruridos do mundo sujo, do mundo de pequeninos que tentam viver às minhas custas. Bater a cabeça já está em outro nível existencial, bato a cabeça para encontrar o batente da porta e passar para o outro lado, o que é belo e poético. Brigar já está mais proximo dos pequeninos que me habitam, brigar é inevitável e me irrita tanto quanto uma coceira.

Bater a cabeça entre todos é o que mais me agrada.

Das brigas não tenho muito a dizer, digo apenas não digo nada. Demoro tanto a perceber que fui ofendida que quando me ofendo...nem lembro bem o porquê.

Das brigas me restam apenas as decisões inesperadas por todos, devem me achar maluca quando saio sorrindo e desapareço. Nesses casos deve ser que percebi mais tarde a ofensa, fermento o ódio como fermentam-se os fungos do meu trato digestivo, os fungos talvez, como eu, não entendam mto bem seus motivos, mas são tão decididos quanto eu após algumas horas.

A dor do batente ao menos dói logo e me acorda para escovar os dentes. Não fica me deixando irritada como aquela picada que coça a noite toda, e que pode ser que não tenha passado se um sonho. Como aquela ofensa.

A mim faz tudo um grande sentido, pego todos os pensamentos que boiavam na boca do meu estômago, e colo mal e porcamente, com cola de cuspe, num texto mal apresentado. Tudo deixa de estar em mim e entra na tela cinza, não menos desorganizado. Pobres dos que, por acidente, o lêem.



Escrito por Flávia Donadelli às 23h54
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Não, a lítera não existe. O que existe são noites silenciosas e preocupações saltitantes em um estômago que não foi feito pra doer, mas dói. A quiromancia não me disse nada, além de me contar que tenho gastrite,que devo beber menos, no mais era tudo mentira. Tenho alguns amigos bons, tenho noites de sono profundo, e as previsões do presente já deveriam ter acontecido se não fossem mentira. Sou frustada por não gostar de todos. Rejeito alguns sem nem mesmo conhecê-los. Algo me diz que não são pessoas simpáticas...talvez o que me irrite são pessoas sem problemas. Pessoas sem problemas me irritam profundamente. Meu amor não é minha lítera. Meu amor eu amo, puramente e sem palavras esparsas. Meu amor não absorveria a complexidade de uma crise pois é puro, pleno, pueril. A inspiração mora toda na dor, na de estômago ou de rim...(dei pra ser doente ultimamente...eu que sempre fui tão saudável de corpo e tão confusa das idéias...agora arranjei lugar no hospital pra fugir do diário da mal amada). A vida é mesmo essa eterna soma-zero. Não, não mudarei o mundo. Não entenderei o mundo...no máximo aprenderei a fazer bolo de fubá pros meus filhos no dia de São João. Poderei, então, dizer que aprendi o bastante pra ser completa. Terei o bolo, a fogueira e as crianças. Talvez eu tenha a mim mesma e aos meus sentimentos calmos. Busco a paz em lugares errados, encontro alguns erros, alguns atrasos de existência, alguns momentos de ilusão. Por que não viver eternamente a displicência sutil de um primeiro dia de férias? Por que buscar a paz na complexidade exacerbada dessa vaidade tola, intelectual, pedante? Não quero mais entender, só vim pra sentir...não, não me expliquem mais nada...deixem-me viver tranquila na ilusão dos meus sentidos, já tão óbvios, já tão dados.

Escrito por Flávia Donadelli às 03h38
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Eu queria aprender a rezar. Como aquele artista e aquele pedreiro que recitam suas preces em obras,eu queria aprender a rezar.

O amor brotando nos planos daquele casal, a menina limpando a casa como se ali fosse seu templo mais sagrado. Eu queria aprender a rezar.

A criança criando seus mundos, a criança aprendendo voraz os mecanismos da vida. O professor seduzido pelo milagre de fazer-se compreender. Todos fazem suas preces, em homenagens, todos se sintonizam, todos se sentem no lugar, todos t^em um lugar. Talvez seja só aprender a rezar.



Escrito por Flávia Donadelli às 23h04
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O que afinal que as pessoas esperam? Somos a tal ponto volúveis, facilmente impressionáveis e carentes de deslumbre que nos deliciamos no observar de nos mesmos, de nossas imperfeições, de nossas glorias. E o medo de não ser aprovado? E tudo que Hollywood ou Machado de Assis não fizeram com a matéria prima de nos mesmos? Talvez falte um pouco mais de audácia da vida de alguns seres débeis e vulneráveis como eu. Talvez falte um pouco mais de verdade e sobre muito temor. Temor de que? Tantos seres dotados de razão e tão pouco sendo feito com ela...e por que será que não se deve dize-lo? Maldita necessidade de dar tapinhas nas costas. Maldita crença nessa necessidade. Será que esperam tapinhas nas costas? Não quero mais dar tapinhas nas costas...

Escrito por Flávia Donadelli às 00h49
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Uma noite de segunda feira

Substancia instável essa de que somos feitos. O esforço todo de repente cai por terra, e não somos mais seres-humanos. Nossos instintos primitivos afloram. Vem o ódio, vem a vontade de ser uma onça pra poder usar as unhas e os dentes. A sensação de descontrole arrasa o orgulho de ser gente, racional, topo da cadeia alimentar e junto com isso surge a verdade nociva e cortante de que somos meros acúmulos de matéria desgovernada, mera fatalidade, mero nada. Vem então a vontade de se esconder no branco de um travesseiro pra sempre. Nunca mais encarar a luz, nunca mais ter a prepotência típica dessa espécie bípede que “sabe” controlar os seus ímpetos mais asquerosos. Que venha a ressaca.

Escrito por Flávia Donadelli às 10h25
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